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INTRODUÇÃO DA OBRA

O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Criciúma e Região, Sinmetal, tem 3500 associados espalhados por 29 municípios da região sul do Estado de Santa Catarina. Com ótimas sedes administrativas e uma sede campestre, o sindicato ostenta uma força e um dinamismo invejáveis.

 

Como nasce uma entidade assim? Que fatores se conjugam para fazer nascer um sindicato? Como devem ser as pessoas capazes de pensar e colocar em curso um projeto de sindicato? Que qualidades devem ter? Que poderes devem ter? De onde vem a força que as move nessa luta? Que formação devem ter? Esta obra tenta responder a essas perguntas. E as respostas surpreendem.  Será necessário dinheiro? E estudos? E educação formal? Quem sabe exclusividade de dedicação? Companheirismo será necessário? E solidariedade?  Ao final, o leitor poderá tirar suas próprias conclusões.

 

Base do livro e sua ampliação

 

A base deste livro é um trabalho de cunho acadêmico-científico, produzido no âmbito de um doutorado em Direito. Isso quer dizer que, nesse trabalho, os fatos reportados foram investigados e somente incluídos quando havia fontes confiáveis para sustentá-los. Não são ficção. O autor não os criou. Ao contrário, muitos deles o autor vivenciou. Mesmo esses, são citados e descritos quando existem elementos documentais que confirmam as impressões do autor.

 

Aos fatos do trabalho original foram juntadas muitas passagens da vida dos personagens que embalam a história da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Criciúma e Região: o padre e o operário. Essas passagens são lembranças do autor e estão delimitadas pelos sinais ♦ ♦ ♦ - que marcam o início -  e ∞∞∞ - que marcam o fim. Além disso, elas são indicadas, também,  pelas seguintes figurinhas, conforme estejam centradas em Raul Clemente Pereira ou em Hélio José de Simas:

 

Os personagens citados nessas passagens são reais. Os diálogos e situações são reconstituições e, como tal, depois de tantos anos, não representam com exatidão as falas e fatos. Espelham, às vezes, ocorrências reais. Noutras, são ocorrências criadas, mas sempre com a preocupação de terem um vínculo com o que, de fato, ocorria.  A ideia é transmitir ao leitor, mediante uma mistura de ficção e lembranças, um sentimento a respeito da vida, ações, práticas, sofrimentos, sonhos, medos e expectativas dos trabalhadores que, na década de 1960, criaram o Sinmetal.

 

Nessas histórias intercaladas e delimitadas pelos sinais ♦ ♦ ♦ e ∞∞∞, e marcadas com as figurinhas acima, procura-se usar uma linguagem menos acadêmica e mais adequada para o público em geral. Mas não se abandonou, em nenhum momento, o rigor em relação aos conteúdos, embora representem, nesse caso, a visão pessoal do autor a respeito dos fatos reportados.

 

Tudo o mais que consta desta obra nasceu de investigação junto a familiares, conhecidos, documentos, fotografias, anotações e veículos de imprensa.

Para fins científicos, a obra pode ser útil, principalmente, pelo que está colocado entre as pequenas histórias e que representa, exatamente, o relatório das pesquisas bibliográfica, historiográfica e sociológica procedida com observância de metodologia adequada, aplicada com o rigor esperado num trabalho científico. 

 

Propósitos da obra

O Sinmetal é, hoje, uma entidade atuante, bem estruturada, que presta relevantes serviços à comunidade: um rio que corre sem cessar, com águas abundantes.  Como acontece com os grandes rios, quem o vê, aqui e agora, não conhece a fonte, pequenina, situada em meio a um nebuloso panorama, de onde brotaram os primeiros vestígios de água. Fracas mas persistentes, aquelas águas foram se fortalecendo, ganhando corpo e abrindo o leito por onde hoje corre o grande rio.

 

Muitos ajudaram nesse trajeto que já alcança 50 anos de percurso. Ampliaram as margens, protegeram as matas ciliares, impediram desvios de curso, não deixaram construir barragens e zelaram pela não poluição.  E o grande rio, o Sinmetal, pôde oferecer suas águas límpidas e refrescantes a milhares de operários do ramo metalúrgico e mecânico, do sul de Santa Catarina,  durante essas cinco décadas.

 

Conhecer o início da entidade e o esforço e a dedicação dos que a fundaram ajuda a respeitá-la. Saber quem foram os visionários que, no início dos anos 60, envolveram-se na formação do sindicato, pode animar muitos trabalhadores a engajar-se  na luta por melhores condições de trabalho e de vida para todos. A simplicidade de Raul Clemente Pereira, e dos muitos amigos que liderou naqueles primeiros anos de 1960, parece demonstrar que é dos simples, mas dispostos, que os trabalhadores podem esperar conquistas para suas vidas. Será?  Esse conhecimento pode contribuir para que associados e dirigentes, no futuro, continuem a luta que inspirou os fundadores.  Simples ou preparados, todos podem, se quiserem, ajudar a transformar para melhor a maneira como vivem e trabalham. Será?

 

Mesmo depois de 50 anos, os sonhos do padre e do operário estão longe de se verem realizados plenamente. Muita coisa mudou para melhor. Mas ainda há trabalhadores explorados. Muitos direitos trabalhistas são apenas expressão legal, não real. A consolidação das leis do trabalho – a bíblia que Raul sempre portava – continua descumprida em muitos de seus aspectos. Políticos e demagogos continuam  tentando imiscuir-se nas entidades para fazer dos trabalhadores apenas massa de manobra.  Ainda existem  dirigentes sindicais sem efetivo compromisso com as necessidades e demandas legítimas dos que trabalham.

 

A luta, portanto, deve continuar.

 

Esta obra pretende registrar, da forma mais fiel possível, os fatos ligados ao surgimento do Sinmetal, descrevendo as ações, os personagens, as dificuldades e recursos de que dispunham. Além do aspecto histórico, esse registro faz uma homenagem àqueles personagens e, talvez, de algum modo, possa servir de inspiração para os associados e dirigentes que terão, no futuro, o encargo de continuar a trajetória de conquistas tão arduamente iniciada.

Rigor científico

No trabalho original, que estabeleceu as bases para esta obra, e que está contido todo na parte I, procurou-se seguir a orientação metodológica “[...]  dos três elementos que devem ser citados para que a história adquira o caráter de ciência.: [...]  a intenção de reconstruir o passado humano, a realização dessa tarefa por meio da pesquisa esmerada e o exercício da crítica.”  Mesmo se tratando de período histórico recente  - década de 1960 – e considerando-se o escopo do trabalho, claramente limitado,  tais requisitos serviram de norte metodológico.  Por outro lado, procurou-se zelar para não “valorar e criar”, mantendo asséptica a reconstrução historiográfica feita, conforme recomendação do mesmo autor.  

 

Os três parâmetros principais de delimitação do trabalho também foram, para o trabalho acadêmico original, claramente marcados: tempo (1962 a 1965), espaço (sul do Estado de Santa Catarina, Brasil) e tema (o embate ideológico-político-sindical).   

 

Trabalhou-se, sobretudo, com fontes diretas (atas, fotos  e testemunhos), embora parte do material se refira a testemunhos indiretos.  Conforme a recomendação de Rabinovich-Berkmann, “a viagem histórica sempre deve ser empreendida sobre as fontes mesmas [...]  ”. Procurou-se, ademais,  não colocar resultados a serem alcançados, salvo aquele critério posto no texto, de desvelar, até onde pudesse, o efetivamente ocorrido. Na obra, como um todo, os horizontes se ampliaram.